11/09/2026
A ORIGEM DO IMPÉRIO DA MÃE DE DEUS
A origem do Império da Mãe de Deus, de Vila Franca do Campo surgiu no Solar da Madre Deus, no séc. XVIII.
O antigo Solar situava-se na então Rua do Senhor, depois chamada de Rua das Laranjeiras e atualmente, Rua Visconde da Palmeira, pitoresca rua que atravessa Vila Franca do Campo, mesmo ao centro, de sul a norte, desde o mar, junto ao Infante, até ao caminho do monte da Mãe d’Água. A primitiva rua chamava-se “Rua do Senhor, por nela viverem os Senhores de Vila Franca, à Casa da Mãe de Deus, então sede da Família Botelho de Gusmão. Este tratamento de Senhores de Vila Franca tinha um cunho sobretudo afectivo e emblemático pelos cargos de administração que exerciam. Mesmo assim, e conforme explica o Dr. Urbano de Mendonça Dias, na sua obra A Vila, «Vem na tradição oral que esta Rua gozava de imunidade, (…) e, assim, logo que a ela se acolhesse qualquer criminoso, não podia ser preso pelos quadrilheiros d’El-Rei.»” (1)
Num recente e brilhante trabalho da Família Botelho de Gusmão, sobre a “A Casa da Madre Deus”, podemos observar a linhagem da família fundadora do Império. “Ao lado da Casa, foi a Ermida da Mãe de Deus mandada construir pelo Padre Francisco António de Macedo, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, entre 1758 e 1762, onde celebrava Missa, «junto ao Solar da Rua do Senhor», o qual se pensa ter sido construído por seu pai, Fernão de Macedo Botelho (1669-1738), sucedendo-lhe, no Solar, o seu filho João Bento Botelho de Arruda (1692-1746); o filho deste, Manuel José de Arruda Coutinho Botelho de Gusmão (1735-1785); o filho deste, José Bento Botelho de Arruda Coutinho e Gusmão (1755-1828); o filho deste, Manuel José Botelho Coutinho e Gusmão (1784-1845) e, finalmente, o irmão deste, Arsénio José Botelho de Gusmão (1801- 1869), que havia adquirido o respectivo vínculo ao abrigo da Lei sobre a União dos Morgadios. Arsénio José Botelho de Gusmão foi quem adquiriu a actual Imagem do Bom Jesus da Pedra, na cidade do Porto, e o último da Família, com a mulher, a promover a Festa em Honra do Divino Espírito Santo que ainda hoje se celebra com brilho ao redor daquela Ermida.” (2)
As Festas do Divino Espírito Santo, com as suas diferenças e variações em Vila Franca do Campo, nas nossas ilhas e não só, têm “uma origem comum – a primeira delas promovida por El-Rei D. Dinis e pela sua Rainha Santa Isabel, em Coimbra, em dia de Pentecostes. Deste modo, e como nota o Dr. Urbano de Mendonça Dias, na sua obra «A Vida de Nossos Avós», a celebração desta Festa é uma tradição tão antiga «como os primeiros povoamentos (…) que trouxeram tal prática, já então muito espalhada por todo o País», de forma que «não houve nobre algum que a não promovesse, quer por espírito de caridade, quer por espírito de imitação a tão nobre gesto de tão grande Rei» – havendo, assim, desde os inícios do povoamento, o nobre costume de uma festa em que «faziam uma coroação e esmolavam os pobres, como o havia feito D. Diniz.» Ora, é natural, sendo o Dr. Urbano de Mendonça Dias um distinto vila-franquense, que, ao chegar a essa conclusão, tenha tido, também, em conta aquilo que era a realidade em Vila Franca. Ou seja, ao postular que era hábito generalizado dos nobres que nos povoaram promover estas Festas, incluirá, naturalmente, os nobres da sua terra, acerca da qual escreve, onde se destacam os donos da Casa da Mãe de Deus e da sua Ermida. (3)
Na altura, a festa ainda não se denominava de “Império” mas sim, de “Festa do Espírito Santo”, cuja celebração tinha semelhanças das primitivas festas realizadas por D. Dinis e a Rainha Santa Isabel. Segundo a família Botelho de Gusmão, ”da tradição oral da Família, sabe-se apenas que antigamente se promovia a Festa, desconhecendo-se os moldes concretos, embora haja registos de casos similares em que o costume desse tempo se cingia normalmente à Coroação de um pobre ou de uma criança e na oferta de uma refeição comunitária aos pobres, na rua ou no pátio externo da Casa, e respectivas esmolas, com a veneração da Coroa do Espírito Santo, provavelmente na Capela da Casa, como hoje se retomou neste caso. De registar o facto de, muitas décadas depois da Casa ter sido demolida, a Festa continuar sempre a fazer-se no seu local habitual, em redor da Ermida e de onde outrora foi a Casa, e não no meio das casas onde habitam os vizinhos que a promovem.” (4)
Segundo a Família Botelho de Gusmão, o início da Festa do Espírito Santo virá, certamente, de séculos anteriores: “Arsénio José Botelho de Gusmão, o seu último proprietário da Família que a edificou e nela teve sede durante três séculos, casou com D. Maria Carlota Moreira da Câmara (1813-1873), mas não tiveram filhos. Faleceu a 12 de Novembro de 1869. Ora, a dita viúva, com a bonita idade de 59 anos, resolveu voltar a casar, em 1872, com Manuel Jacinto Lopes (1844-1935), ajudante de caixeiro numa loja de fazendas desta Vila, rapaz de 29 anos de idade, vindo com poucos recursos do Nordeste. Com o inesperado casamento foi-se a Casa e veio o título de Visconde da Palmeira ao dito jovem, o qual se tornou figura respeitada na Vila, embora se comentasse o facto de a viúva nunca mais ter sido vista fora de Casa durante aquele seu resto de vida. Sucedeu a este ramo da Família no apoio à Banda Lealdade e no mando do Partido Regenerador, embora, logo após o 5 de Outubro, tenha abotoado a casaca a favor da República, sendo que ao ramo liberal da Família, descendentes de Nuno Botelho de Gusmão, I Visconde do Botelho, ficou o apoio ao Partido Progressista e à sua Banda da União. Cinquenta anos mais tarde, em 1935, com a morte do Visconde da Palmeira, ficou o Solar para os sobrinhos deste, os quais, infelizmente, deixaram a Casa ir-se arruinando, acabando por, na década de sessenta do século XX, desaparecer completamente, dando lugar a duas casas novas que ali se construíram, a sul da Ermida, e a Quinta envolvente, ao Campo de Jogos de Vila Franca e à actual Escola Secundária de Vila Franca do Campo. Perdeu assim Vila Franca aquela que era considerada «a melhor vivenda desta Vila»” (5)
Em 1831, o Rei D. Pedro IV visitou a ilha de São Miguel durante Guerra Civil Portuguesa, passando oito dias na ilha para se informar sobre a administração, inspecionar tropas e dar ordens. Durante a sua estadia em São Miguel, visitou Vila Franca do Campo e esteve no Solar da Madre Deus “conforme consta na acta da Câmara que a escolheu para receber D. Pedro IV, na sua visita a este concelho (a contragosto dos proprietários que, como é bom de ver, apoiavam a causa da Tradição).”
O vila-franquense Armando Côrtes-Rodrigues, na sua “Voz do Longe”, descreve o seu descontentamento pela demolição do Solar da Madre Deus: “Rolaram os anos, em que a fonte nunca deixou de carpir no velho e artístico fontenário, ao fundo do pátio de entrada, que um grande portão de ferro trabalhado separava da rua…e um triste dia aquele honroso monumento de antanho, de que a Vila justamente se ufanava, foi demolido sem um protesto, sem o menor respeito pela dignidade de uma arquitectura que dele fazia, no seu género, a mais valiosa parcela de todo o património vila-franquense.” (6)
Em 1883 faleceu Maria Carlota Moreira da Câmara, esposa do Visconde da Palmeira, não tendo deixado descendência deste ou do anterior casamento. Desconhece-se a continuidade da realização das festas do Espírito Santo no Solar da Madre Deus, por parte do dito Visconde, após o falecimento da esposa.
No entanto, o Jornal “Correio do Açores”, na sua edição de 15 de maio de 1932, contém uma notícia que confirma a realização das festas do “Império do Espírito Santo da Mãe de Deus”, ou seja, cerca de três anos antes do falecimento do Visconde da Palmeira, em 1935. Está evidenciado que o “Império” ganhou nova vida e continuidade nos arredores do Solar e da Ermida da Mãe de Deus. O artigo descreve o seguinte: “Festeja-se hoje o Império do Espírito Santo da Mãe de Deus na rua do Visconde da Palmeira, havendo de manhã a coroação com grande aparato na igreja Matriz e de tarde arrematações e arraial, tocando junto ao «Império» a fanfarra «Lealdade». (…) Também amanhã, na Travessa das Laranjeiras, às 16 horas, haverá mudança dos emblemas do Espírito Santo, que será acompanhada pela «Rival das Musas»” de Ponta Delgada. (7)
Pela descrição do texto, podemos constatar a existência do “Império da Mãe de Deus” quase nos moldes atuais, fazendo parecer na época, que a sua existência já é comum e tradicional há alguns anos.
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in livro «IRMANDADE DO DIVINO ESPÍRITO SANTO DA MÃE DE DEUS - 25 Anos a servir», de Carlos Vieira.
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(1) BOTELHO DE GUSMÃO, Paulo Domingos Alves de Albergaria, e Gonçalo Madeira de Bettencourt. (2015-2025). Documento “A Casa da Madre de Deus”, em Vila F. Campo, p. 1.
(2) Idem (Ref.ª 1), p. 1.
(3) Idem (Ref.ª 1), p. 1.
(4) Idem (Ref.ª 1), pp. 1-2.
(5) Idem (Ref.ª 1), p. 2.
(6) Idem (Ref.ª 1), p. 2.
(7) CORREIO DOS AÇORES, Jornal. (1932). Notícia “Vila Franca do Campo” da edição de 15 de maio de 1932. Ponta Delgada.
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Imagem: Recriação do Solar da Madre de Deus com recurso a IA, com base na imagem patente no livro, DIAS, Urbano de Mendonça. (1949). “A História das Igrejas, Conventos e Ermidas Micaelenses”. I volume. Edição da Tipografia «A Crença» - Vila Franca do Campo, p. 171.