04/04/2025
“É no palco do passado que Valeria habita. E é logo no primeiro plano que o descobrimos, viajando por uma casa de aura sinistramente premonitória, por onde entra a personagem-título: uma empregada doméstica que também parece reconhecer algo no espaço. Instala-se o mistério, em que cada objecto parece relíquia, cada pormenor, uma pista e o som mais miúdo, o mais alto. Apesar da sensação de vinheta crescente, é um filme de delicadezas, em que o detalhe é exaltado e um grão de areia tem a capacidade de romper com o equilíbrio ténue da realidade. Neste universo onde a objetividade é esquecida, seguimos uma única personagem. E, usando espelhos como instrumentos de reflexão, simultaneamente, visual e conceptual, as deformações de cada imagem refletida revelam diferentes visões da mesma pessoa. No reflexo, descobrimos o seu potencial nostálgico – a qualidade fracturante da memória. Mas quem nos devolve o olhar é um fantasma do arrependimento, vítima da impossibilidade do retorno.” - Margarida Nabais, para o Cineblog ().
🎥 Valeria (2023, Rússia), de Olga Khoreva.
Filme exibido durante a sessão NOVA MEMORIZAÇÃO — Até ao meu regresso… da 5ª Edição do Festival CINENOVA.