11/03/2026
Trabalho publicado em RRostos da Aldeia
«Licínio Maurício, o gaiteiro
Professor de Matemática, nasceu em Almalaguês e habituou-se às festas da terra, em que o “gaiteiro” – um trio de músicos composto por gaita de foles, caixa e bombo – percorria as ruas da aldeia para avisar da festa. O pai foi o primeiro gaiteiro de Almalaguês. Licínio seguiu-lhe os passos e, hoje, anda com o afilhado-sobrinho e um amigo de infância a animar as festas de rua. Eis o seu testemunho.
Gaiteiros representados na aldeia de Almalaguês
Gaiteiros representados na aldeia de Almalaguês ©Filipe Morato Gomes
“O meu objetivo é que a experiência de ser gaiteiro seja cada vez melhor”
Chamo-me Licínio Maurício, tenho 52 anos e sou filho do gaiteiro que fundou o primeiro trio aqui em Almalaguês, algures pelos anos 70 ou 80. O meu grupo, Gait’Arte, formou-se há 11 anos e, na verdade, pode dizer-se que é atualmente o grupo mais antigo da freguesia.
Não posso dizer que haja muitos ensaios entre nós. Na verdade, os ensaios fazem-se com a prática, e a prática tem-se é nas festas. O gaiteiro prepara a música e, nas festas, experimenta-se, ensaia-se ao longo do evento. Escolhem-se os momentos em que há menos pessoas e ensaia-se. Fizemos isso mais no início, acertámos algumas coisas quando começámos.
Foto antiga de gaiteiros de Almalaguês
Foto antiga de gaiteiros de Almalaguês ©DR
Foto antiga de gaiteiros de Almalaguês
Foto antiga de gaiteiros de Almalaguês ©DR
Foto antiga de gaiteiros de Almalaguês
Foto antiga de gaiteiros de Almalaguês ©DR
Os grupos de gaiteiros são requisitados sobretudo para festas. Na maioria das aldeias, as festas são no verão, mas aqui em Almalaguês a nossa festa principal é mesmo em janeiro: as festas de São Sebastião. Aqui nunca deixaram de ser no inverno.
O meu objetivo é manter a tradição e que o gaiteiro seja cada vez melhor.
Licínio Maurício
Agora as coisas mudaram muito. Havia festas que duravam sábado, domingo e segunda. Aqui ao lado havia uma festa que ia até terça e quarta. Nessa altura, lembro-me do meu pai a fazer ginástica para trocar turnos no trabalho e conseguir ir às festas. Hoje, a maioria dura um ou dois dias, normalmente ao fim de semana. Quando calha durante a semana, já é complicado por causa dos empregos. Todos temos profissões fora disto: eu sou professor de matemática na escola de Mortágua, o Fernando trabalha nas Águas de Coimbra e o meu sobrinho, que também é meu afilhado, é engenheiro químico numa cimenteira.
Grupo de Gaiteiros de Almalaguês
Grupo de Gaiteiros de Almalaguês ©Tiago Cerveira
O que faz o gaiteiro, na altura das festas, é percorrer as aldeias com a Comissão de Festas para recolher donativos. Normalmente convidam-nos para tomar um copo e comer qualquer coisa. Tanto podemos ter umas bolachitas e uma broa, como uma caçoila de chanfana à nossa espera. E assim vamos tocando, comendo e andando. Em aldeias grandes, andamos nisto de manhã à noite, e às vezes é complicado gerir a situação. Não podemos recusar, mas também não podemos beber sempre. Por isso, vamos bebendo à vez.
Comecei a tocar gaita por causa do meu pai. Com a idade, vieram as doenças, e muitos dos senhores mais velhos foram desaparecendo. Havia vários grupos sem gaiteiros. Mesmo o grupo do meu pai tinha dificuldades sempre que ele não podia ir. Como já estava ligado à música, disse-lhe que ia aprender gaita e que, quando fosse preciso, eu ia às festas sem problema.
Licínio Maurício, gaiteiro de Almalaguês
Licínio Maurício, gaiteiro de Almalaguês ©Filipe Morato Gomes
Pormenor da gaita de foles de Licínio
Pormenor da gaita de foles de Licínio ©Tiago Cerveira
Licínio Maurício, gaiteiro de Almalaguês
Licínio Maurício, gaiteiro de Almalaguês ©Tiago Cerveira
A música entrou cedo na minha vida. Em miúdo, tocava órgão na igreja. Comecei pelo piano, mas o saxofone passou a ser o meu instrumento principal. Ainda hoje toco saxofone em muitos eventos com outra formação. Na verdade, compensava mais financeiramente, mas a gaita de foles, mesmo sendo mal remunerada, permite manter a tradição. E é isso que nos anima.
A gaita de foles aprende-se tocando. Aprende-se nas festas, onde há emoção. Cheguei a tocar com o meu pai, inclusive num Encontro de Gaiteiros de Almalaguês, onde ele foi homenageado. Em casa, ele é a minha inspiração. As músicas que tocava são as que eu toco. Podia seguir outro caminho, tocar um estilo mais celta, mas ele tocava o mais tradicional e é esse o estilo que se toca aqui. Fiz questão de transcrever tudo em partitura, para que um dia, quem quiser continuar, tenha a música já feita.
Gaiteiros de Almalaguês
“Não há festa até o gaiteiro chegar” ©Tiago Cerveira
O que me motiva a continuar? Isto nem se explica. Apesar do cansaço, das corridas contra o tempo, há algo no convívio, no conhecer pessoas novas, que nos anima. E estar com este trio é um prazer.
Agora, o meu objetivo é manter a tradição e que o gaiteiro seja cada vez melhor. E é bonito quando junto estas duas vidas. Atualmente dou aulas em Miranda do Corvo, mas quando comecei fui colocado em Côja. Anos depois, estava a tocar em Barril de Alva e acabei à porta de um ex-aluno do 5.º ano. Foi emocionante vê-lo já chefe de família.
O meu sobrinho, quando começou, queria claramente ganhar uns trocos. Começou antes dos 20 anos e preocupava-se em ficar bronzeado apenas de um lado, porque o outro estava escondido pelo bombo… Mas a verdade é que o pessoal mais novo está a recuperar esta tradição, à medida que os mais velhos desaparecem.
Adega em Almalaguês
Pormenor da adega em casa de Licínio Maurício ©Filipe Morato Gomes
Grupo de Gaiteiros de Almalaguês
Convívio entre os elementos do Grupo de Gaiteiros de Almalaguês ©Filipe Morato Gomes
Grupo de Gaiteiros de Almalaguês
Convívio entre os elementos do Grupo de Gaiteiros de Almalaguês ©Filipe Morato Gomes
Isto é cíclico. Agora está na moda tocar gaita de foles. Houve tempos em que era visto como um instrumento menor. Até gozavam. O gaiteiro era muitas vezes rotulado como uma cambada de bêbados. E, antigamente, com alguma razão. Cheguei a tocar com pessoal mais velho e eles contavam que de manhã ainda tudo corria bem, mas à tarde… cadê o gaiteiro? Hoje, as comissões de festas são mais exigentes. E ainda bem.
Esta região de Coimbra sempre teve tradição de gaiteiros. Eram sempre convidados para a Queima das Fitas. Agora, estamos a recuperar uma identidade própria. As vestimentas das gaitas estão a ser feitas com tecelagem de Almalaguês. Faz todo o sentido. Ainda não tenho a minha, mas já está encomendada.»
https://www.rostosdaaldeia.pt/coimbra/almalagues/licinio-mauricio-gaiteiro-almalagues/