07/10/2025
O Paradoxo do “De Fora é Melhor”
Há caminhos que nascem da sombra e seguem em direção à luz. Como esse da imagem, uma estrada de terra que se perde entre galhos e silêncios, e que parece convidar o olhar a atravessar o escuro para alcançar o clarão das montanhas. É um movimento quase natural: o corpo deseja o sol, o olho busca o brilho, o coração acredita que o melhor está sempre mais à frente, mais longe, mais fora.
Mas o fora, ainda que cintile, é também uma promessa que se renova no vazio. Quando o alcançamos, ele deixa de ser fora, torna-se dentro, e o ciclo recomeça. É o paradoxo do desejo humano: o fascínio pelo outro lado da colina, pela terra que ainda não pisamos, pelo desconhecido que parece conter a plenitude que o aqui não oferece.
Contudo, há uma sabedoria na sombra. É ela que nos dá o contorno, que faz o olho descansar para reconhecer o que realmente importa. A estrada não seria caminho sem o chão de terra que se apoia sob os pés, sem o frescor das árvores que a margeiam. O “de fora” só brilha porque existe um “de dentro” que o sustenta.
Essa crença de que o melhor está fora é, muitas vezes, herança de um olhar colonizado, acostumado a medir valor pelo distante, pelo importado, pelo que parece mais sofisticado porque não carrega o pó do nosso chão. Mas o que é “fora” senão o dentro de outro alguém? O que é distante senão o espelho que reflete o nosso próprio desejo de reconhecimento?
Há beleza no que é nosso, mas ela se revela em silêncio, em passos lentos, como o caminho de terra que exige calma para ser percorrido. O fora é o horizonte que inspira, mas o dentro é o terreno que nutre. O fora acende o sonho, o dentro sustenta o corpo.
Talvez o verdadeiro aprendizado esteja no meio, nesse instante em que o olho, ainda na sombra, vislumbra o clarão adiante. No limiar entre o escuro e o sol, o mundo deixa de ser dividido. Dentro e fora se misturam, o longe e o perto se tocam, e o caminho se torna casa.
Porque o que é melhor, afinal, não está no que é de fora nem no que é de dentro, mas no gesto de atravessar, de reconhecer o brilho e a sombra como partes de um mesmo caminho. É no entre, no passo que avança e sente, que mora o sentido da viagem.