21/03/2020
A geração "no future": chuva ácida e futuro incerto no Rio de Janeiro do início dos anos 1980. Há um paralelo interessante com aquele momento e essa pandemia do coronavírus. Com a diferença essencial: isolamento social era algo feito dentro de novos clubes e bares que surgiam naquele momento da Ditadura e da Guerra Fria.
Leia o capítulo "A New Wave Carioca", de Rio Cultura da Noite: uma história da noite carioca (A History of Rio's Nightlife), de Leo Feijó e Marcus Wagner, publicado em 2014 pela Leya/Casa da Palavra. Está esgotado nas livrarias.
Rio Cultura da Noite Marcus Wagner Leo Feijo
A new wave carioca (Capítulo 10 – Rio Cultura da Noite)
A década de 1980 revelou vertentes tão múltiplas na noite carioca
quanto os reflexos de um globo espelhado dentro de um caleidoscópio.
No tempo das festas hi-fi, a pista de dança se popularizou. Entrou na
rotina de uma nova geração de cariocas, no momento em que o Brasil
gritava pela redemocratização e o mundo, pela paz.
O contexto político-econômico era tenso. A passagem dos anos 1970 para os 1980 foi feita com apreensão. A Guerra Fria esquentava no Oriente Médio com o conflito Irã/Iraque e a invasão do Afeganistão pelos soviéticos. Havia a ameaça da bomba atômica e uma grande crise mundial gerada pela falta de abastecimento de petróleo. Em contrapartida a superprodução de co***na, provocada pela entrada da Colômbia no mercado mundial, reduzia drasticamente os preços do produto, popularizando a droga que antes era restrita às elites.
Caminhava-se da era industrial para a era da informação e uma nova
cultura pop se desenhava. Em dezembro de 1980, um dos maiores símbolos do pacifismo mundial, o Beatle John Lennon, seria assassinado em Nova York.
No ano seguinte, um socialista, François Mitterand, chegaria à presidência da
França anunciando que não havia saída fora do capitalismo. Nos Estados
Unidos, o ator presidente Ronald Reagan promovia o neoliberalismo
e comemorava o fim das utopias.
Nesse cenário, o Brasil emergia defasado do resto do mundo depois de 21 anos de ditadura militar. Com a abertura política, veio finalmente o adeus à censura e uma nova cena cultural florescia.
Geração Coca-Cola
Em 1984 foi inaugurada no Parque Lage a exposição “Como vai você, Geração 80”, um retrato da variada produção da vanguarda carioca e paulista. O grupo não se definia em nenhum tipo de manifesto, nas palavras de Marcus Lontra, um dos curadores, estava tudo ali, “todas as cores, todas as formas, quadrados, transparências, matéria, massa pintada, massa humana, suor, aviãozinho, geração serrote, radicais e liberais, transvanguarda, punks, panquecas, pós-modernos, neoexpressionistas (...)”. A nova geração se diferenciava entre si e principalmente em relação às anteriores, que produziram a arte engajada dos anos 1960 e 1970. Mais individualista, ela havia se desligado do processo político e social do país.
A cena musical seguia na mesma linha, altamente ramificada. O chamado
BRock estourava com o Barão Vermelho e muitas outras bandas, muitas delas, pela primeira vez, viriam de Brasília. O rock ganhou terreno nas pistas e nas rádios, como Cidade FM e Fluminense FM. Essa última, chamada carinhosamente de “Maldita”, transformou-se em foco de resistência e plataforma de lançamentos. Lojas de discos eram espaços que serviam como ponto de encontro do público jovem, além do Baixo Leblon e do Baixo Gávea, sinônimos então recentes de boemia nesses bairros.
No restaurante Real Astoria, no Baixo Leblon, frequentado pelos astros da nova cena pop, filas intermináveis nas portas dos toaletes varavam a madrugada. A brizola também brilhava na noite carioca, batizada com o nome do novo governador, o ex-exilado político Leonel Brizola. A co***na, muito mais barata, passou a ser consumida assiduamente pelos frequentadores da noite. O fortalecimento do narcotráfico internacional coincidiu com a política inovadora do governador socialista do Rio, eleito em 1982, em relação aos morros dominados pelo tráfico.
No intuito de proteger as camadas mais pobres da população, o governo decidiu coibir a ação violenta da polícia dentro das favelas e reconfigurar as instituições policiais habituadas às arbitrárias práticas da ditadura. A década de 1980 foi marcada por esse debate e pela violência cotidiana. A noite da cidade, como sempre, refletiu essa nova realidade. O Rio passara a ser uma das principais rotas de saída da droga do continente. A filha do governador, Neusinha Brizola era frequentadora assídua do Real Astoria, além de Bebel Gilberto e Cazuza, um dos mais representantivos da turma, não só nas noitadas e filas, mas em outras aspirações bem mais subjetivas da nova geração. Cazuza emplacou dezenas de sucessos, o refrão “Ideologia, eu quero uma pra viver” (da música “Ideologia”) foi a bandeira dessa geração. Esse LP vendeu 2 milhões de cópias e uma das músicas, “Brasil”, foi tema de Vale Tudo, em 1988, uma das novelas mais populares da televisão brasileira.
Independentemente da falta de ideologia da vanguarda, o Brasil vivia um momento histórico, que levaria à campanha das Diretas Já, em 1984, e à constituição da Nova República. O ceticismo com a política, o país e o futuro estimulou um ambiente de diversão e de entretenimento sob forte influência da cena internacional.
No cenário noturno apareceram lugares como o Cochrane’s – embrião de um grupo alternativo que viveu o apogeu com o Crepúsculo de Cubatão, sucedido pela Kitschnet. O Cochrane’s foi aberto em 1982 em uma casa antiga na rua das Palmeiras, em Botafogo. Era frequentado por quem buscava a atmosfera londrina em pleno calor carioca. O bar foi criado pelo casal de ingleses Ursula Westmacott e Christopher Crocker, que aportaram no Rio depois de viver anos
em um veleiro.
A principal atração da casa era a trilha sonora, uma sequência com The Clash, The Cure e The Smiths, bandas até então pouco ouvidas por aqui. Ursula e Christopher tinham amigos brasileiros e conheceram Caetano Veloso em Londres. O casal dividia um apartamento no Flamengo com o britânico Ronald Biggs, famoso assaltante do trem pagador que, depois de cometer o crime e escapar da prisão no Reino Unido, fugiu para o Brasil.
Chris e Ursula tinham chegado ao Rio sem uma fonte de renda. Resolveram abrir o Cochrane’s, que tinha decoração temática, criada com a intenção de simular o ambiente de um clube inglês contemporâneo. No cardápio, pratos típicos britânicos (scottish eggs!) e um ligeiro toque indiano. “Tudo era diferente, até nossos garçons eram universitários, quando fizemos o Cochrane’s, não havia nada parecido no Rio”, explica Ursula. Ela conta que foi à Saara, centro de comércio popular no centro do Rio, e comprou livros a metro e objetos alusivos ao Império Britânico. O casal trouxe na bagagem um setlist especial e apostou em bandas que ainda eram praticamente desconhecidas no Rio, onde os bares ainda tocavam músicas das décadas anteriores.
O ineditismo era um ponto forte da casa, uma vez que, no início da década de 1980, os lugares dedicados ao público jovem no Rio eram ainda pouco criativos. Depois do bar, o casal de ingleses partiu para uma nova empreitada, desta vez com Biggs como sócio: o Crepúsculo de Cubatão. Na sociedade, o assaltante do trem pagador entrava com fama e dinheiro, pois a concepção vinha dos outros dois sócios. Uma antiga garagem em Copacabana abrigava o empreendimento que foi responsável por uma ponte direta com a Europa, para delírio dos anglófilos locais, e que marcou época na vida noturna carioca.
O poeta e compositor Antonio Cicero, que frequentou o Cochrane’s, desempenhou um papel importante nessa geração. Sua poesia deu suporte para o enorme sucesso de sua irmã, a cantora e também compositora Marina Lima. Ambos procuravam romper com as tradições ligadas ao samba e à bossa nova, e sintonizar o Brasil com o cenário internacional. Num manifesto libertário publicado no encarte do LP Fullgás, a dupla rompe com as raízes e ataca o patrulhamento dos puristas que tentavam impor fidelidade às tradições musicais brasileiras. “Bom é ser contemporâneo ao mundo. Tomamos partido pelo presente e nele pelo mais full gás e mais fugaz”, diz um trecho do manifesto.
Chuva ácida e futuro incerto
O Crepúsculo foi de 1984 a 1989. Ficava no número 543 da rua Barata
Ribeiro, em Copacabana. Tocava basicamente rock britânico: Siouxsie & The Banshees, Bauhaus, The Cure, Sisters of Mercy, The Smiths, Everything But The Girl, Echo & The Bunnymen e New Order. Richard Andeol, frequentador do Cubatão antes mesmo da inauguração oficial, esclarece:
“A proposta do Crepúsculo tinha a ver com uma visão mais alternativa mesmo, de crítica social; e aí tem a ver com o pós-modernismo, o anarquismo punk, o niilismo existencialista e o expressionismo alemão também. Sem falar, claro, nos estilistas japoneses de Paris (risos). Daí o preto, contrapondo com as cores da juventude alegre e feliz dos comerciais e programas de TV. Mas isso estava longe de ser uma regra.”.
No bar podia-se degustar drinks como o chuva ácida (gim, suco de limão e água cristal), lagoa cinza e kamikaze. E ouvia-se o som comandando pelos DJs Luiz Cláudio e Dudu Candelot que traziam de tudo um pouco, o ska do Madness e Specials, uma nova safra de bandas inglesas como The Cure, The Smiths, Bauhaus e Echo and the Bunnymen – essa última, após uma apresentação em maio de 1987 no Canecão, contou com seus integrantes passando uma noite inesquecível no “lugar onde o sol não brilha”.
Eventualmente também rolavam shows e performances, como as de Zé do Caixão, numa época em que ele estava por baixo, lembra o músico, DJ e fotógrafo Pedro Serra. Sua banda na época, Ao Redor da Alma, tocou cinco vezes no Cubatão, incluindo o último show que houve na casa, em 1989.
A casa chamou a atenção da imprensa, que foi até a Barata Ribeiro colher material para matérias que acabaram provocando irritação nos frequentadores, retratados como um bando de entediados vestidos de preto.
Nesta matéria, o monstro sagrado do punk, John Cale, afirma que os new waves são os primeiros boêmios reacionários de que se tem notícia. Para ele foi uma reação à disco music. O surgimento desse movimento nasceu no bar CBGB, em Nova York. (Jornal do Brasil, 1981)
– Depois das matérias, muita gente foi atraída pelo estereótipo e tentou se enquadrar nele. De qualquer forma havia sempre muita mistura lá dentro, mas tinha um certo dress code. Sobre esse código no vestir, Richard lembra de uma das várias histórias ambientadas no Cubatão:
“Como eu disse, o Crepúsculo era democrático até a página trinta, até porque a cultura noturna alternativa da época era mesmo o dress code. Um dia um surfista de bermudão e camisa da Company foi barrado. Ao ouvir que sua roupa não era adequada ao local, começou a tirá-la. Não deu outra, entrou.”
Afinal a irreverência é uma instituição carioca e se mantinha presente
como no tempo dos Cafajestes. O clube recebeu o nome como ironia à cidade de Cubatão, no Estado de São Paulo, considerada na década como uma das mais poluídas do mundo e ofereceu ao Rio tudo o que um público jovem, criativo e um tanto niilista queria: um ambiente com estética dark, com a trilha sonora ideal para uma época marcada pela Guerra Fria, chuva ácida e futuro incerto. Mas tudo que o Crepúsculo tinha de soturno, tinha também de divertido.
A casa foi laboratório para DJs que estão na ativa até hoje. É o caso de José Roberto Mahr, Felipe Venâncio, Wilson Power, Zé Pedro (que começou por lá trabalhando na chapelaria) e Edinho, que assumiu a pista por acaso e dela não saiu nunca mais. Todos dispunham de discos importados, a maior parte deles chegava da Inglaterra pelo correio ou via mãos de amigos como Mahr, que além de DJ era mais um dos comissários de bordo que alimentou a noite nas décadas 1960 a 1980.
O jornalista Tom Leão, então DJ Tony The Tiger, era um dos que tocava na casa. “O negócio no Crepúsculo não era ser dark, era ser diferente”, costuma definir o DJ e jornalista. Quem chegava no Crepúsculo passava por uma espécie de checagem de figurino. O acesso só era liberado para quem estivesse com figurino no estilo da casa, o que em outras palavras significava um tom genericamente gótico, na época classificado como dark ou, no mínimo, surpreendente. Fernanda Young aparecia fantasiada de mergulhadora, de bruxa ou incorporando outros personagens. Essa nova tribo “carioca” com roupas escuras, sem um traço de bronzeado e com maquiagem pesada, batom e lápis preto nos olhos usava coturnos e sobretudos.
Reclamar do calor por conta das roupas pesadas? Nem pensar. A onda era essa, e suor algum seria capaz de mudar o estilo naquele microcosmo londrino. O ambiente bem escuro quase não deixava à mostra a pista de dança xadrez e o encanamento aparente da antiga garagem. Mesmo com a pista cheia, dançava-se como se estivesse absolutamente só, sem nenhuma relação externa, de frente para a parede ou de olhos fechados, movimentando-se de forma desconexa, assimétrica, oblíqua como os ângulos que enquadraram a estética do período. Radicalmente diferente dos trejeitos travoltianos que coreografaram a era disco.
Certa noite alguém resolveu inovar nos passos de dança e se pendurou num dos canos que passava pelo teto. Foi o bastante para fazer chover na pista e a deixa para o DJ Zé Roberto Mahr tocar “Rain”, do The Cult. Timing perfeito. O que jorrou dos canos da velha garagem não importava. O lugar foi decorado por Ursula, com estilo que ela mesma certa vez definou como “industrial”. “Comprei um monte de calculadoras velhas e motores quebrados e iluminei, para dar um aspecto industrial ao ambiente. No bar os drinks eram batizados com nomes alusivos à poluição e à auto-destruição, o que mais saía era o Kamikaze – vodca, com suco de limão e contreau.”
Depois do Crepúsculo, o endereço abrigou a Kitschnet, que manteve o estilo alternativo, mas diferente. A decoração era inspirada nos anos 1950. O casal Ursula e Chris despediu-se do Rio de Janeiro em 1988 levando dois filhos nascidos aqui.
(Trecho de “Rio Cultura da Noite”, de Leo Feijó e Marcus Wagner)