23/05/2026
Histórias do Brique da Redenção - 15
Clair Maria Wesolowski Molina - artesã
Seu Ladislau carregava os poucos móveis da família para o caminhão de mudança, enquanto dona Clara arrumava roupas e outras miudezas. As crianças - três polaquinhos de cabelos amarelos e escorridos - observavam toda aquela movimentação sem compreender direito o que acontecia. Sentadas lado a lado em um banquinho, Alice e Clair apertavam contra o peito suas bonecas de pano, feitas pela mãe com sobras de tecido, enquanto Jair implicava, ora com uma, ora com outra.
Partiram de trem na manhã seguinte, bem cedo. Levavam pouca coisa: um baú de roupas e uma máquina de costura Singer.
- Meus pais foram aqueles que vieram para a capital. Eu tinha três anos - recorda Clair.
Em Porto Alegre, enquanto seu Ladislau passava o dia percorrendo a cidade como motorista, dona Clara dividia-se entre os afazeres da casa e a profissão de costureira. Na casa nova nasceu Neca. As meninas cresceram ao redor da mãe, cercadas por retalhos de tecido, carretéis de linhas e pelo barulho ritmado da máquina de costura. Com ela aprenderam a arte de pregar um botão, as minúcias de fazer uma bainha e os segredos de cerzir uma calça com capricho.
Cresceram na zona sul da cidade.
As bonecas da pequena Clair mal haviam sido guardadas no fundo do armário quando a vida adulta empurrou a porta com força e entrou; não queria esperar.
- Fui mãe muito jovem. Larguei os estudos. Na época, era feio estar grávida e ir para o colégio.
As primeiras colônias polonesas começaram a se estabelecer no Rio Grande do Sul a partir de 1875. Primeiro, nas encostas da serra, próximas de onde hoje f**a Carlos Barbosa; depois, em Dom Feliciano, um dos municípios que mais preservam a cultura e o idioma polonês no estado; passando por Mariana Pimentel e São Miguel, região de origem da família de Clair; até chegar à Áurea, no norte do Rio Grande do Sul, conhecida atualmente como a Capital Polonesa do Brasil.
Segundo o sociólogo e pesquisador Octavio Ianni, os imigrantes poloneses sofreram marginalização e discriminação tanto de outras etnias quanto das elites brasileiras. Em seus estudos, observou que, na tentativa de ascender socialmente ou de se distanciar da população afrodescendente e indígena, alguns grupos de colonos acabavam reproduzindo o racismo da sociedade que os cercava.
Vitor conheceu Clair nas festas da igreja da comunidade onde moravam. Descendente de espanhóis, herdara a tez morena dos povos mouros que habitaram o norte da África até a Reconquista Católica. Os velhos colonos poloneses chamariam Vitor de "brasileiro". Para seu Ladislau e dona Clara, pouco importava como o chamavam ou de onde ele vinha; importava, na verdade, para onde seguiria dali em diante.
Clair e Vitor casaram.
Enquanto aguardava o nascimento de Anelise, sua primeira filha, Clair aprendeu crochê e, depois, tricô. Comprou uma máquina de tricô e começou a trabalhar no Brique da Redenção com a sogra, dona Maria, uma das primeiras expositoras da feira. Logo tomou gosto pelo ofício de artesã e conquistou sua própria banca no Brique.
Começou confeccionando roupas para bebês e bonecas. A família inteira acabou se envolvendo no trabalho: seu Ladislau e Alice tornaram-se parceiros de feira e a acompanhavam todos os domingos; dona Clara confeccionava vestidos de noiva; Neca, extremamente detalhista, colaborava nos acabamentos. Vitor f**ava em casa cuidando dos filhos - agora eram dois, com a chegada de Cristiano.
As roupas de bonecas surgiram na França, no século XIV. Como ainda não existia fotografia, os alfaiates vestiam bonecas articuladas com suas criações, e esses manequins circulavam pelas cortes europeias divulgando as últimas tendências da moda. Entre os séculos XVIII e XIX surgiram as bonecas de papel, que permitiam às crianças trocar roupas e até criar seus próprios modelos, além das bonecas tridimensionais, como as de porcelana, que possuíam enxovais feitos à mão.
Em 1959, Ruth Handler criou a Barbie e revolucionou esse universo ao contratar estilistas renomadas para produzir peças de alta-costura em miniatura, transformando definitivamente as roupas de boneca em um nicho de mercado rico e cobiçado.
Com a pandemia, Clair acabou deixando de produzir peças para bebês e concentrou-se nas roupas de bonecas, pois eram mais fáceis de embalar e ofereciam menos riscos de contaminação. Hoje, veste sete ou oito tipos diferentes de bonecas. Seus clientes vão desde crianças ainda engatinhando até senhorinhas de cabelos brancos.
- Qualquer boneca que a pessoa tiver, ela chega na minha banca e, com certeza, sai com ela vestida. Tem um senhora, de mais de oitenta anos... Esses dias, apareceu com uma boneca que ganhou aos seis, para ver se eu tinha alguma roupa que servisse. E consegui vestir. Ela saiu daqui numa alegria... - recorda, toda faceira.
Hoje, passados mais de quarenta anos desde o primeiro dia em que pisou na feira, Vitor tornou-se seu colega de trabalho. É ele quem faz os moldes e os cortes nos tecidos, além de montar a banca aos domingos e ajudar nas vendas. Dona Clara e seu Ladislau partiram já faz algum tempo. Alice e Neca voltaram para as Missões, mas, sempre que vêm a Porto Alegre, passam no Brique para uma visita. Anelise e Cristiano foram morar bem longe, mas escrevem todos os dias para a mãe.
A pequena Victoria, filha de Cristiano, fã de carteirinha de Clair - tanto pelo carinho quanto pelos vestidos lindos que ganha para suas bonecas - ainda não sabe, mas aquela velha máquina Singer permanece guardada a sete chaves, esperando pelo dia em que ela terá suas primeiras aulas de costura com a avó.
Pesquisa e texto: Edegar Rissi
Criação e pesquisa: Patricia Rebellato