15/09/2025
A Alma Tropeira no Prato Tropeiro-Lapeano
Por Marcio Assad
Minha jornada como tropeirista não começou nos livros de história, mas sim na vivência, na poeira das estradas de chão e nas longas conversas ao pé do fogo. Dediquei minha vida a pesquisar e, mais do que isso, a sentir o que significava ser um tropeiro. Percorri os antigos caminhos, mergulhei nos arquivos e, principalmente, ouvi as histórias dos descendentes desses homens que construíram a identidade do nosso Paraná. É dessa imersão que nasce a minha paixão e o meu trabalho para manter viva a chama da cultura tropeira, especialmente através de seu mais autêntico porta-voz: a gastronomia.
Essa busca incessante por resgatar e, ao mesmo tempo, inovar dentro da nossa tradição culinária me levou a criar pratos que contam histórias. Um dos meus maiores orgulhos é o Tropeironoff. A inspiração veio da vontade de unir o rústico ao clássico, de apresentar nossos ingredientes de uma forma nova e surpreendente. Criei o prato especialmente para o Festival do Pinhão, combinando o nosso charque, a estrela da cozinha tropeira, com a sofisticação de um estrogonofe, resultando em uma harmonia de sabores que conquistou paladares. A alegria de ver esse prato ser reconhecido foi imensa, culminando com a honra de ser finalista no concurso de culinária paranaense do programa Caminhos do Campo, da RPC-Globo. Hoje, uma das minhas maiores satisfações é compartilhar essa criação, ensinando a receita em aulas-show para grupos de turistas, mostrando que a nossa cozinha é viva e está em constante evolução.
Essa jornada me levou a participar de inúmeros eventos nacionais, sempre levando a bandeira da nossa cultura tropeiro-lapeana. E é nesse ponto que a minha história pessoal se entrelaça com a história coletiva da nossa gente. Para entender pratos como o Tropeironoff, é preciso voltar no tempo, à origem da nossa cozinha.
A culinária tropeira surgiu da mais pura necessidade durante o ciclo da mineração, no século XVIII. Os tropeiros, conduzindo suas tropas por vastidões, precisavam de alimentos duráveis. O charque, aquela carne bovina desidratada pelo sol e pelo sal, era a proteína essencial, muitas vezes transformada em paçoca para enriquecer a comida. Eles misturavam o feijão com o que tinham à mão e que resistia à viagem: farinha de mandioca, linguiça, ovos, torresmo.
Ao chegar aqui na Lapa, um oásis em suas longas jornadas, encontravam novos sabores. A nossa "Quirerinha Lapeana", com seu milho quebrado e os suculentos cortes de porco, foi um desses encontros felizes. Os tropeiros a incorporaram ao seu cardápio, e dessa união da cozinha do viajante com a cozinha local, nasceu a gastronomia tropeiro-lapeana.
Foi para celebrar essa fusão, essa riqueza cultural, que me dediquei a criar e organizar eventos que são a materialização do meu lema de vida: unir Cultura, Turismo e Gastronomia. O Festival Tropeiro da Gastronomia Paranaense, o Lapa, Sabor & Arte em suas três edições, e o Festival da Primavera foram mais do que eventos; foram celebrações da nossa identidade. Em cada um deles, buscamos resgatar as receitas, as músicas e as tradições, mostrando que um prato de comida pode ser uma poderosa aula de história.
O Tropeiro Lapeano, portanto, é muito mais que uma receita. É o sabor da resistência, da criatividade e do encontro. É a história da Lapa e do Paraná servida à mesa. E para mim, um tropeirista de alma, poder continuar contando essa história através dos sabores é o que dá sentido a toda a minha caminhada.