13/12/2017
Atendendo a pedidos
A HISTÓRIA DE LILITH
1) Desaparição editorial
No primeiro capítulo do livro Gênesis, que faz parte da Torá e da Bíblia, Deus cria “homem e mulher” à sua imagem e semelhança. Mas, logo no capítulo seguinte, somente Adão é mencionado. Onde foi parar a mulher do primeiro capítulo? É só no segundo capítulo que Eva é criada, e no terceiro que recebe seu nome. Essa inconsistência sugere queparte do texto tenha sido editadaou removida.
2) Lilith já estava lá.
O registro mais antigo dessa figura está nas gravuras dos amuletos de Arslan Tash, relíquias que datam do século 7 a.C. Alguns historiadores argumentam ainda que Lilith é mencionada ainda antes, na demonologia suméria do terceiro milênio a.C. Na Épica de Gilgamesh, poema mesopotâmio de 2100 a.C., há uma possível menção aLilith como demônia.Ou seja,Lilith já era conhecida antes de compilarem o Gênesis, o que reforça a teoria de que foi “apagada da história”.
3) Primeira mulher, primeira rebelde
Segundo o Alfabeto de Ben Sirá, um dos textos que compõem a coleção de escritos rabínicos chamado Talmud,Lilith foi criada a partir da poeira junto a Adão – portanto, antes de Eva. Mas ela negou-se a deitar sob ele na hora do s**o por não se sentir inferior e, em protesto, abandonou o Éden. Ou seja, segundo o antigo folclore judaico,Lilith rebelou-se contra a “superioridade” masculina de Adão, o que a torna uma figura problemática para o judaísmo e para o catolicismo, religiões patriarcais.
“Agora sim”
Outra evidência de que Eva não foi a primeira pode ser encontrada nos versículos de sua criação, no capítulo 2 do Gênesis. Em várias edições do texto, Deus decide dar ao homem uma companheira “idônea”, o que sugere que alguma primeira parceira,“não idônea”, já tinha sido criada antes. Reforça essa teoria a fala de Adão em certas edições da Bíblia (como a King James Atualizada) quando vê Eva: “Esta, sim, é osso dos meus ossos”.
POR OUTRO LADO
Nada é certo quando falamos em textos antigos.
– A teoria acadêmica dominante sobre o Gênesis diz que a “incoerência” entre o primeiro e o segundo capítulo seria reflexo da tentativa de juntar dois mitos de criação em um livro só, e não sinais de que parte dele foi “apagado”
O Gênesis é aberto a intepretação. Há quem leia o primeiro capítulo como um resumo geral da criação do mundo, para só no segundo entrar em detalhes
– Tanto Gênesis quanto Isaías são textos antigos, têm origens incertas e passaram por diversas traduções até as versões atuais, que diferem entre si. Ou seja, não existem versões “definitivas” dos livros
– Todas as conexões entre a figura do folclore judaico Lilith e as civilizações pré-cristãs são contestáveis. Alguns consideram os amuletos de Arslan Tash falsificações. A passagem da Épica de Gilgamesh que cita Lilith pode ser uma adição do século 6 a.C., e seu significado é incerto
– O único texto que de fato menciona Lilith como primeira mulher de Adão é o Alfabeto de Ben Sirá, do século 7, que alguns consideram satírico, embora faça mesmo parte do Talmud judaico
– Textos sagrados não são livros de história. Discutir o que “realmente” aconteceu no Éden é igual a discutir se Capitu traiu Bentinho: não há uma resposta.