A música é Disparada, parceria de Vandré com o violonista Theo de Barros, nascida durante uma viagem a Catanduva, no interior paulista, em 1966. “Ele pegou a música caipira, juntou Guimarães Rosa e fez uma coisa completamente nova. Como obra de arte, Disparada talvez seja a música mais perfeita que o Brasil já produziu”, declarou, em depoimento, o jornalista e pesquisador Alberto Helena Jr., um dos primeiros a ouvir a canção. Foi o primeiro e único caso de empate na chamada era dos festivais. Naquele 1966, Disparada e A Banda, de Chico Buarque, foram declaradas vencedoras no concurso da TV Record. Na verdade, A Banda havia vencido, mas o próprio Chico exigiu o empate, por considerar – até hoje – que Disparada era melhor. A canção foi defendida por Jair Rodrigues, em interpretação épica, mas que antes de acontecer foi vista com certa desconfiança por Vandré, por considerar Jair muito brincalhão. O primeiro encontro entre eles foi ríspido, mas depois de vê-lo cantando o autor deu um abraço de “quebrar ossos” no intérprete. Jair Rodrigues interpreta a música Disparada, de Geraldo Vandré e Theo de Barros
Matraga
O ano de 1966 foi especial para Vandré. Ele venceu também o festival da TV Excelsior, com Porta Estandarte, parceria com Fernando Lona, que, vindo da Bahia, finalmente pôde com o prêmio alugar um apartamento. Além disso, o compositor foi responsável pela trilha sonora de A Hora e Vez de Augusto Matraga, filme de Roberto Santos com base em conto de Guimarães Rosa e representante do Brasil no festival de Cannes. Pouca coisa se sabe efetivamente sobre a obra de Geraldo Vandré. Sua carreira de músico profissional foi relativamente curta e prejudicada por um certo folclore alimentado pelo silêncio. São apenas cinco LPs lançados, de 1964 a 1973, data de seu retorno ao Brasil, após quatro anos e cinco meses de andanças pelo exterior, em uma saída forçada pela repercussão de sua música mais conhecida, Pra não Dizer que não Falei das Flores (Caminhando), de 1968. Artistas como Caetano Veloso e Chico Buarque dizem que naquela época era possível perceber nos interrogatórios certa “prioridade” dos militares em relação a Vandré. Alguns falavam mesmo em matá-lo, segundo o compositor baiano. Famoso produtor de festivais, Solano Ribeiro acredita que ele poderia ser morto se fosse preso no pós AI-5. Por ironia, seu último show no Brasil como cantor profissional foi justamente em 13 de dezembro, data do ato institucional, em Anápolis (GO)
No teatro Opinião, no Rio, onde se ele apresentava com o Quarteto Livre no show Pra não Dizer que não Falei das Flores, houve um atentado a bomba, que não deixou feridos. Os músicos haviam saído pouco antes para comer uma pizza. Na mesma época, ele declarou ao repórter Arthur Poerner, no Jornal do Brasil, um dos que o ajudaram a deixar o país: “A música é, portanto, uma mensagem, uma informação, não um conselho. Mesmo porque o povo não precisa de conselhos”. O refrão é uma necessidade